Quinoa: um dilema na América do Sul

2013 é o ano do mais novo “queridinho” mundial

Este é o “Ano Internacional da Quinoa”. Assim foi definido pela Organização das Nações Unidas. Se você desconhece este alimento, ele é um grão ancião de origem andina que pode ser utilizado em sopas e saladas ou, até mesmo, transformado em farinha para a confecção de pães e bolos, por exemplo. Quando cozido, apresenta um sabor similar ao de noz e é repleto de proteína saudável. Com todos estes valores nutricionais, o mundo ocidental trouxe o quinoa para a mesa nas principais refeições diárias. Isto promoveu o grão à categoria de “superalimento”.

O quinoa é produzido em grande escala na Bolívia e no Peru. O mercado de exportação do grão está no seu melhor momento, crescendo consideravelmente. Os consumidores internacionais estão basicamente situados nos EUA e na Europa. Também há consumo na Ásia e na África. No começo deste mês, foi realizado um fórum em Pequim junto dos produtores peruanos para discutir a exportação do grão para a China. Tal iniciativa aumentaria exponencialmente o volume de exportação da produção andina.

Muito caro para a comunidade local

Quando se observa este ingrediente fazendo sucesso na culinária internacional em diversos países, é fácil concluir que os produtores da Bolívia e do Peru têm muito a ganhar. Mas, infelizmente, não é tudo assim tão positivo. Enquanto o apetite pelo quinoa cresce mundialmente, o mesmo produto se torna uma commodity de alto custo para os consumidores locais.

Quinoa é um alimento que já faz parte da dieta dos sul-americanos, especialmente para a população que vive nos Andes. O grão fornece nutrientes vitais para essas comunidades. A comida tradicional boliviana, por exemplo, é simples, porém saudável. Bolivianos acreditam que a alimentação diária tem que ser preparada com cuidado e com ingredientes cultivados na região (movimento parecido com o chamado “slow food” no Reino Unido). Fato que pode ser comprovado com o fechamento das lojas do Mc Donald’s na Bolívia em 2002. A rede mundial de hamburguers não conseguiu atrair os consumidores, que demonstraram um sentimento anti “fast food”.

Sendo assim, se as camadas populacionais mais pobres da Bolívia e do Peru não podem consumir quinoa devido ao aumento do preço, isto implicará inevitavelmente em uma mudança nos hábitos alimentares destas populações.

Inclusive, podendo causar um impacto na saúde dos mesmos. Este reflexo pode ser muito negativo em alguns países sul-americanos que já apresentam um alto índice de desnutrição relacionado à pobreza.

Cultivo Internacional de Quinoa

Um dos objetivos do Ano Internacional da Quinoa é gerar programas de desenvolvimento sustentável para a produção do quinoa no nível nacional e global. No momento, mais da metade do abastecimento internacional deste grão é de origem das fazendas da região dos Andes no Peru e na Bolívia. Porém, com este aumento de consumo, a produção já está se espalhando pelos EUA, Quênia e Índia.

Na mesma semana do Fórum em Pequim, a empresa de comunicação inglesa BBC publicou um artigo sobre o primeiro produtor comercial britânico de quinoa. O doutorando em ciência das plantas, Stephen Jones, que está por trás da empresa British Quinoa, acredita que este será o “grão do futuro”. Tudo indica que ele será a primeira pessoa a comercializar o quinoa cultivado na Grã-Bretanha.

Agora vamos ao dilema: será que deveríamos consumir o quinoa produzida nos Andes?

A história da quinoa andina levanta algumas questões éticas que envolvem a globalização dos alimentos. Por exemplo:

– Nós, como consumidores, temos a obrigação moral de compreender o impacto causado localmente dos alimentos de origem internacional?

– Quando nos deliciamos em uma salada feita com quinoa, deveríamos pensar em como isso afeta a população andina?

– Deveríamos considerar que podemos estar afetando a saúde daqueles que vivem na Bolivia e no Peru, simplesmente por querer uma alimentação mais diversificada e saudável?

– No futuro, pode ser que o plantio local de quinoa em outros países seja a solução. Mas isso também não afetaria o potencial de exportação e o crescimento econômico da região dos Andes?

As respostas para tais perguntas são difíceis e é no mínimo complicado encontrar uma única resposta correta.

Source: http://bit.ly/16gdPef

 

 

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